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Journal d'une Femme de Chambre

Journal d'une Femme de Chambre

Também tenho as minhas vaidades

Sou uma mulher como as outras. Gosto de me sentir apreciada.

Na pensão onde trabalho e que os senhores gostam de chamar de hospedaria vive um sujeito que frequentava a casa da minha anterior patroa, a dona Flor. É um senhor muito fino, mora no sótão e tem aquilo cheio de livros.

Sempre soube, pela forma como se comportava, que estava enrabichado pela dona Flor. Ela não lhe ligava. É uma senhora fina mas, muito isolada. Vive bem sozinha com os seus bichos. Uma ou outra visita dos vizinhos com pequenos mimos das hortas chegam para a fazer feliz.

Passávamos dias e dias sozinhas naquela casa, sem ver vivalma. Valia-nos o humor que era o que nos unia.

O meu nome é Maria Sexta-feira. Contavam os mais antigos que quando o bisavô de maman foi registar a minha bisavó lhe fizeram também o registo e como o chamavam Manel do Pinheiro, sendo que Pinheiro era a localidade e já existiam muitos Pinheiros (quase todos os vizinhos), foi instruído a escolher outro sobrenome. Como não estava preparado disseram-lhe - olha hoje é sexta-feira, ficas Manuel Sexta-feira e a tua filha Maria Sexta-feira. Ele que não era muito talhado para essas coisas e achou bem, desde então as Marias Sexta-feira sucedem-se. 

Quando fui trabalhar para casa da dona Flor, depois de tantos anos na França, trazia o sotaque característico dos emigrantes muito cerrado, a dona Flor achou-lhe graça e começou a tratar-me por Vendredi.

Mais tarde, contou-me um senhor das letras que esteve na hospedaria de passagem, o Senhor J. Eustáquio de Andrada , que Vendredi era o nome de um Índio que o Senhor Robinson Crosoé conheceu numa ilha depois de o barco onde seguia se ter afundado. O Senhor Robinson Crosoé que se sentia sozinho, na ilha a que chamou Speranza porque mantinha a esperança de sair dali, fez do Índio seu trabalhador e amigo. Achei apropriado porque eu também fiquei amiga da dona Flor sem perder a esperança de um dia sair daquela solidão.

Quero muito bem à dona Flor mas, sempre lhe invejei a admiração que os homens nutriam por ela. Pois, agora, estou feliz porque o tal hospede do sótão anda embeiçado por mim. Chamam-lhe Impontual, é muito elegante e parece que gosta de mulheres assim como eu, delgadas. 

Eu, sempre achei que o trabalho me tinha deixado seca mas, afinal há quem aprecie. Já me fez sua musa e tudo. 

Uma mulher não é de ferro, tenho as minhas vaidades e gostei de me sentir apreciada. 

 

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